"Vivências". A falta de palavras serão compensadas pelas imagens. Assim é…espero

"Lapinhas de Natal"

                                                       
Tinha eu cerca de seis anos,  vivia com os meus pais em Melgaço.
Era a época de pascoela muito cedo de manhã, estava muito frio, fomos todos rapidamente a correr para a carrinha Volkswagen do Sr. Manuel Esteves e fizemos uma viagem muito demorada. Sei que não me sentia muito bem e vim quase sempre a dormir.
Quando saímos da carrinha estávamos na Trofa em casa dos meus avós. Não sabia porquê.
Entramos em casa onde estava muita gente e quando passamos pelo quarto dos meus avós que era logo à esquerda no corredor de entrada, consegui ver que o meu avô estava deitado na cama.
Sem perceber o que fazia toda aquela gente ali, os meus pais levaram-me logo para o quarto onde dormia a meu tio Raúl. Deitaram-me na cama e apareceu muita gente também ali no quarto.
Não sei quando, mas alguém de carro com o meu pai, levou-me a casa do médico, creio que na época era o único, na zona da Capela. Lembro-me perfeitamente que a consulta foi feita na entrada de casa no jardim e deitei a língua de fora. Eu tinha muito calor.
Quando chegamos a casa deitaram-me novamente na mesma cama, tudo escuro e toda a gente saiu.
Fiquei muito tempo às escuras e quase ninguém me vinha ver. Os meus pais traziam-me comida que eu não queria comer.
Mais tarde disseram-me que eu tinha o sarampo e a escarlatina. Parece que era sério e fatal em alguns casos.Não sei quanto tempo ali fiquei, nem porque estávamos lá.

Mas nunca mais vi o meu avô.

Aquele com quem fui criado desde os meus dois anos até aos cinco e que um dia me recebeu quando o meu pai foi obrigado a levar-me de Regilde à Trofa, de noite e de motorizada porque eu não parava de chorar. A vida de circo dos farmacêuticos, nessa altura, fazia com que o meu pai não parasse de mudar de terra. (dizem, não me lembro disso).
Aquele que me aquecia na cama, pois eu dormia entre os dois avós.
Aquele que me levava muitas vezes de comboio até ao Sameiro e a Santa Luzia.
Aquele que me deu um dia um fato de marinheiro e mo vestiu numa viagem de comboio.Aquele que me dava brinquedos no Natal.

O meu avô Lobo, era recoveiro. Fazia o serviço entre a Trofa e Porto e eu ia muitas vezes com ele.
Era uma pessoa muito importante. Se fosse hoje, diria que era o dono da TNT ou DHL.
Lembro-me de muitas outras coisas boas dessa altura.
A casa onde vivi com os meus avós na Trofa tinha duas cozinhas. A “cozinha velha” era onde se passava mais tempo. Tinha uma lareira onde estava constantemente o lume a arder. Havia um daqueles potes de ferro de três pés, com água sempre a ferver. A sopa era também feita num desses potes e tinha sempre ossos,  para dar o gosto e couves da horta. A minha avó Rosa fazia ali a “lavagem” que era parte da comida de um porco que ela  tinha. Comprava o bicho pequenino, criava e depois vendia ao Sr. Manuel que era o merceeiro lá da terra. Às sextas-feiras havia matança.
O meu avô ralhava às vezes com a avó por causa desses bichos. O que é certo é que fui muitas vezes com ela à feira para comprar os leitõezinhos.
Na cozinha velha havia também uma daquelas máquinas que funcionavam a petróleo, tinha sempre em cima uma cafeteira com café, uma com chá e uma com leite.
Aquele café era trazido do Porto pelo meu avô, tinha um cheiro muito especial. Uns anos muito mais tarde, descobri que esse aroma  era proveniente da “chicória”, que fazia parte do lote.
Na cozinha velha os bifes eram grelhados na lareira, em cima de um velho testo de panela. A carne era deliciosa.
Hoje não dá mais.
“As Lapinhas de Natal” é o nome de um livro que me foi oferecido pelo bom aproveitamento escolar na escola “Gomes Teixeira” do Porto. Ainda não o li. Mas consta da minha biblioteca, um destes dias vou fazê-lo.

O meu avô Lobo tinha um aspecto de galego. Andava sempre de bóina, bigode muito bem aparado e sempre muito bem disposto. Era raro vê-lo sem uma flor na lapela.(Como neste caso). A minha avó era muito meiga e bonita.

Escreverei mais, depois…

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3 responses

  1. Foi para mim uma grande surpresa ler aqui coisas que dizes que me contaste, mas das quais não me lembro… de todo.Estou curiosa para saber o resto.Adorei ver a foto da tua querida avó Rosa, que também conheci e gostei muito.BeijoFernanda

    21/12/2009 às 00:07

  2. As lembranças que temos dos avós são pérolas da nossa infância. Por vezes não muito agradáveis, mas ficam marcadas para sempre. Lembro-me de ver a minha bisavó já sem vida, com o lenço a fechar-lhe o maxilar, enquanto toda a gente chorava à sua volta. Era muito pequeno, mas recordo-me que não chorei ali. Fui para o quintal e aí, sozinho, despedi-me dela.Um abraço, e um feliz Natal.

    22/12/2009 às 10:39

  3. Caro Perfumado,Sei perfeitamente do que fala. São aquelas lágrimas que caem para dentro.Perfuram muito mais.Resta-nos a alegria de ter vivido momentos inesqueciveis com essas pessoas.Retribuo os Votos de Bom Natal.Abração

    22/12/2009 às 19:22

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