"Vivências". A falta de palavras serão compensadas pelas imagens. Assim é…espero

Segundo regresso à Trofa

Melgaço naqueles tempos, era uma pequena e pacata localidade. O inverno era rigoroso, havia muita neve e gelo. Os lobos uivavam durante a noite na serra mas ouviam-se em casa.
O meu pai como trabalhava na única farmácia que existia daí até Monção, tinha muito que fazer. Era frequente durante a noite pessoas baterem à nossa porta para ele ir à farmácia. Era o que se intitula hoje, horário “flexibilidade total”. Em contra-partida a nossa dispensa era farta em ofertas. Aqueles produtos que hoje são veneno abundavam, presunto, salpicão, conservas várias e até de lampreia, etc.
Pela primeira vez na  minha fresca memória, estávamos todos juntos. Éramos quatro irmãos, eu e o mais velho nascêramos na Trofa, a seguir a mim nascera em Regilde, o mais novo nascera aí mesmo.
Os meus pais depois do jantar, juntavam-nos a todos e saíamos a passear pela vila. Era hábito, durante parte das caminhadas, sermos acompanhados pelo gato que havia lá em casa. Assim como apanharmos uns tabefes, porque as nossas brincadeiras de passeio, acabavam como acabam todas as brincadeiras de 4 rapazes juntos.
Mas… há sempre esse mas, a vida na província não era futuro para os jovens. Assim quando o meu irmão mais velho acabou a 4ª classe, para continuar os estudos, foi para o Porto viver com uns tios.
Eu fiz a 3ª classe entre Melgaço e Trofa. Os meus pais tinham decidido que o futuro passava pelo Porto por isso mais uma mudança. Levaram os meus irmãos mais novos com eles e eu regressei ao paraíso. Fui viver com a minha avó Rosa e o tio Raul, que assumira a profissão do meu avô Lobo. Só nessa altura é que finalmente encarei a realidade do que tinha acontecido ao meu avô. A primeira vez que soube o que a morte significa e representa.
A segunda foi, quando um dia eu estava a brincar com o cão que a minha avó tinha, era o meu companheiro favorito, ele esperava-me no fim das aulas. Lembrei-me de vir andar com ele para a estrada num carrinho de rolamentos. Eu desci pela estrada asfaltada e o cachorro corria atrás. Antes de um cruzamento eu parei e o bicho passou para o outro lado. Quando o chamei ele obedeceu, só que passou um carro. Coloquei o animal no carrinho e trouxe-o para casa. A minha avó tratou dele. Nunca mais quis cães
Terminei a 3ª classe e já ia na 4ª, quando fui convocado para o Porto. Aí ainda frequentei duas escolas primárias, só depois é que definitivamente assentamos, mudamos para uma casa perto da farmácia, onde o meu pai trabalhou até ao fim da vida.
Agora pela segunda vez, estávamos definitivamente todos juntos. Além do mais a minha avó só habitava a cerca de 20km o que fazia com que as idas para a Trofa fossem agora mais amiúde.
Os Natais aqui eram diferentes, o Pai Natal era outro. A partir daqui acabaram-se os brinquedos, a vida era diferente, por isso os presentes eram outros. Aqui, deixei de acreditar no Pai Natal.
Embora não estudasse, a atenção e boa memória que eu tinha durante as aulas, facilitaram a minha vida de estudante. Foi aqui que na época 65/66, estava eu no 1º ano da Escola Preparatória Gomes Teixeira, fui contemplado com os livros “Lapinhas de Natal” de Manuel de Boaventura e “Excursão Acidentada” de Richard Church. Este foi o prémio de bom aproveitamento escolar, tinha passado o ano com média geral de 14 valores. Neste período, lembro-me de um dia ter feito uma redacção sobre o tema “comunicações”, o professor quando me deu o resultado pôs suf.+, era a pior nota alguma vez por mim tirada num trabalho. O professor quando me entregou o texto, pediu que o lesse para a turma, depois da primeira leitura, riscou o suf.+ e deu-me Bom, pediu novamente para eu ler e acabou por dar-me Muito-Bom. Nessa altura, quando os professores nos perguntavam as notas nas outras disciplinas, eram os meus colegas que diziam as minhas. A boa e rigoroza preparação escolar na província, fazia a diferença na cidade.
Está a ficar comprido. Vou ficar por aqui.
NB. Finalmente li as “Lapinhas de Natal”. É possivelmente a 1ª edição de 1964. Tinha uma marca na pág. 15. Sinal que eu já tinha chegado até ali. São contos sobre o Natal. Fiquei a saber a origem do tronco de natal das lareiras e do vinho quente com mel. Não é leitura fácil, já que é escrito por um minhoto com linguagem local e termos do galaico-português. Talvez a razão da minha não leitura em tempo próprio.
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